A Casca do Mundo

I. Ho bugure itanaji (Os inimigos foram vencidos)

A vitória tem cheiro de gordura queimada. Era isso que Kaya sentia, encolhida na penumbra de sua cabana, enquanto o vento trazia o odor adocicado da carne de paca assando nas fogueiras do pátio central. Lá fora, a aldeia Krim Orutu rugia. Um rugido que era mais de êxtase do que raiva. Os guerreiros haviam voltado da Margem Esquerda. Os Koropós, os eternos rivais de língua travada e flechas curtas, haviam sido expulsos.

O chão de terra batida pulsava. Trezentos pés golpeavam o solo em uníssono, levantando uma poeira escura que tingia o luar. — Ho bugure itanaji! — o grito coletivo subia aos céus, espantando as corujas. Kaya apertou os dedos contra o ventre distendido. A cada batida de pé lá fora, seu útero respondia com uma contração de ponta de lança aqui dentro. Era como se o ritmo da guerra estivesse empurrando seu filho para fora, querendo que ele nascesse já marchando. Ela estava suada. Deveria haver parteiras ali. As anciãs deveriam estar preparando os panos. Mas elas estavam lá fora, embriagadas pelo canjana, a cachaça forte que celebrava a glória. Ninguém queria perder a festa da vitória. E Kaya, em seu silêncio orgulhoso, não as chamou.

— Eles comemoram a morte dos Koropós — sussurrou ela para a escuridão, mordendo o lábio. — Mas quem matou Ubi foi um Koropó. E Ubi não voltou com a vitória. A ironia era amarga como fel. Ubi, seu marido, pai da criança, morrera três luas antes. O vazio ao lado dela na esteira era a única terra conquistada que importava. Ela se levantou. As pernas tremiam. Precisava sair. O barulho da alegria alheia era uma ofensa ao seu luto e ao seu trabalho de parto.

II. Guashantl’eh, guashantl’eh (Dança, dança)

Ela caminhou para longe da luz das fogueiras, em direção à beira da mata fechada, onde o Guashantl’eh — a dança — não era de homens, mas de sombras. A dor veio avassaladora, dobrando-a ao meio perto da raiz de uma árvore gigante. Kaya respirou fundo, puxando o ar abafado da floresta. Enquanto os guerreiros dançavam a coreografia da morte lá no pátio, ela precisava dançar a coreografia da vida. E a vida Puri exigia casca.

Erlu… — chamou ela, a voz fraca. — Irmão Tatu. A tradição era clara. O pai deveria caçar o Tatu. Deveria trazer o animal blindado para que o filho fosse banhado na essência da resistência. O Erlu é o bicho que não briga; ele se fecha. A flecha bate e escorrega. O dente da onça resvala. O Tatu sobrevive porque é duro. — Ubi não está aqui — disse ela, cravando as unhas na terra seca perto de uma toca que ela vinha vigiando há dias. — Então eu sou pai e mãe. Eu sou a lança e o cesto.

Kaya deitou-se de bruços na terra. O ventre enorme dificultava tudo. Ela enfiou o braço no buraco escuro. Lá no pátio: Guashantl’eh! Guashantl’eh! A dança frenética. Aqui na mata: o silêncio tenso da espera. Seus dedos roçaram em algo áspero. O bicho estava lá. O Tatu se estufou, travando o corpo nas paredes da toca com suas garras. Kaya puxou. O suor escorria em seus miri, os olhos ardendo de esforço. Era uma luta de forças. A força da gravidade da terra contra a força da mãe. Ela grunhiu, um som animal, e num puxão final, trouxe o bicho para fora. O tatu se debateu, as garras arranhando o antebraço dela. Kaya não soltou. Com a mão livre, pegou um espinho longo de tucum. Ela não o matou. Não precisava da carne, precisava da essência. — Krokon kon — sussurrou ela, pedindo desculpa. — Sem maldade. Apenas força. Com precisão, ela furou a ponta da pata do animal. O krim escuro, o sangue espesso, brotou. Kaya aparou as gotas numa pequena cuia que trouxera consigo. Uma, duas, três, sete gotas. O suficiente. Ela soltou o bicho, que correu para a escuridão.

III. Ah, ah, canjana (Eu, eu, a bebida)

Ela desceu até o Ñamantuza, o braço mais limpo do rio. A lua cheia refletia na água corrente. Foi ali, na areia fria da margem, que Kaya travou seu combate final.
Ela pegou a cuia com o sangue do tatu e completou com água. Deixou ao lado, para usar na hora certa. As contrações agora eram uma tempestade. Ela se agachou. Não gritou. O grito gasta a força que o empurrão precisa. Quando a cabeça da criança coroou, Kaya sentiu que estava se partindo em duas. A dor era o preço da passagem entre os mundos. — Venha — ordenou ela. — Saia da toca. O menino escorregou para as mãos dela. Quente. Viscoso. Vivo. Kaya cortou o cordão com a faca de taquara. O bebê abriu a boca para o primeiro choro, o ar frio da noite invadindo pulmões virgens.

Mas antes que o choro viesse, Kaya agiu. Ela pegou a cuia onde misturara a água gelada da nascente com as sete gotas do sangue do Tatu. A “bebida” da pele. A poção da blindagem. — Ah, ah, canjana — ela escutou lá no fundo o verso do canto, mas se recusou a cantar. O ‘eu’ do canto buscava o esquecimento na bebida. O ‘eu’ de Kaya buscava a memória na água fria. Era o momento em que um filho recebe a identidade e força de sua mãe. Ela derramou a mistura da cuia sobre a cabeça, o peito e as costas minúsculas. A água estava fria como gelo. O sangue estava morno. O choque fez o bebê contorcer a espinha. Ele não chorou; ele engasgou, travou a respiração e ficou vermelho. Seus punhos se fecharam com força. Seus olhos se apertaram. — Isso… — sussurrou Kaya, alisando a mistura sobre a pele dele. — Feche o corpo. Crie casca. O mundo lá fora é mole, meu filho, mas você será duro. A palavra ruim bate e volta. O menino soltou o ar num suspiro longo e olhou para ela. Havia uma seriedade naqueles olhos recém-nascidos. 

— Krim. Seu nome será Krim. Sangue. Honre o sangue derramado do teu pai. Lembre-se da força recebida com o sangue do tatu. Fuja da festa que celebra o sangue derramado dos irmãos, meu filho. Faça que o orgulho de ti circule no meu Krim.

IV. Maschê, tch’mba (Comer, beber)

Kaya voltou para a cabana antes do amanhecer. A festa lá fora havia acabado. O silêncio da exaustão cobria a aldeia. Kaya sentou-se na esteira, o filho sugando o leite com voracidade. Maschê, tch’mba. Comer, beber. A vida se alimentando da vida. Ela olhou para o rosto sereno do filho, protegido pelo sangue do Tatu invisível na pele. Pensou na guerra que terminara. Para os Puri, os Koropós eram o Grande Inimigo. Matá-los era garantir a sobrevivência. A vitória de hoje parecia definitiva.

Kaya não era vidente. Mas, olhando para aquela criança que teria que crescer sem pai, ela sentiu um aperto no peito. Uma desconfiança de que aquela vitória era pequena demais. Ela olhou para as próprias mãos, sujas de terra. — Nós brigamos pela margem do rio — sussurrou ela para o filho — porque achamos que o rio é eterno. Kaya não sabia, mas o tempo estava correndo mais rápido do que o rio. Ela não podia imaginar que, em menos de duas gerações, o canto Hoho Bugre não seria cantado para celebrar a morte de um Koropó. Ela não sabia que aquele bebê em seu colo um dia estaria encurralado numa gruta fria no meio da mata. E que ao lado dele, ombro a ombro, estaria um guerreiro Koropó.

O verdadeiro inimigo, que ainda não tinha rosto naquela noite de festa, não viria com flechas, nem respeitaria as estações da caça. 

Ele viria com papéis, com cruzes e com doenças que faziam o sangue virar água. Diante da fome insaciável do Rayon Beorona, o homem branco invasor, a rixa mortal entre Puri e Koropó se revelaria o que realmente era: uma briga de irmãos disputando brinquedo no quintal de uma casa que já estava pegando fogo. Mas naquela noite, sob a proteção da casca do tatu e do leite morno, Krim dormiu. A terra ainda era deles. O rio ainda corria límpido. E a ilusão da vitória permitia que a aldeia sonhasse, pelo menos por mais uma noite, que o mundo terminava na margem do rio.

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