Para a sociedade moderna, o tabaco é visto apenas como vício ou doença. Mas se voltarmos no tempo, para a mata fechada onde viviam os antigos Puris, a planta do tabaco (Pétum) não era veneno. Era veículo.
Neste artigo, vamos desvendar a função original dessa medicina e entender por que a fumaça era a principal tecnologia espiritual dos nossos ancestrais.
🌿 A Tecnologia do Transe: Engolindo a Nuvem
Os registros históricos são claros: o pajé Puri tinha uma relação visceral com o tabaco. O ritual envolvia o uso de um cachimbo (ou charuto de folhas) com fumo de corda bravo — uma variedade nativa com concentração de nicotina muito superior à do cigarro industrial atual.
O segredo do ritual antigo não estava apenas em tragar. Estava em engolir a fumaça.
Ao reter aquela fumaça densa dentro do corpo, o pajé induzia uma intoxicação controlada. O corpo ficava leve, a percepção alterava e a mente entrava em um estado de “tonteira sagrada”. Para a medicina ocidental, isso é intoxicação física. Para a cosmovisão Puri, isso era abrir a porta para o mundo espiritual.
✨ A Escada para os Encantados
A fumaça do Pétum servia como uma escada. Ela criava a atmosfera propícia para a comunicação com os Encantados.
Na cultura Puri, os Encantados não são simples fantasmas. São ancestrais, guerreiros ou pajés antigos que não morreram de forma comum; eles se “encantaram”, tornando-se parte da natureza — vivendo nas pedras, nas corredeiras dos rios e nas árvores. Sem a fumaça e o transe do pajé, essa conexão ficava distante.
🦅 E o Rapé? Contexto Histórico e Retomada
Hoje, no contexto de Retomada, é muito comum o uso do Rapé (um pó fino feito de tabaco moído e cinzas de árvores, soprado nas narinas). Mas como isso se conecta com a tradição Puri?
Precisamos analisar três pontos fundamentais:
- A Limitação dos Registros: Os viajantes do século XIX (como Wied-Neuwied) descreveram obsessivamente o cachimbo e a fumaça. Porém, o fato de não terem escrito sobre o rapé não significa que ele não existia entre nós. É possível que o uso fosse mais restrito ou secreto, e o olhar estrangeiro simplesmente não captou essa prática, focando apenas no que era mais visível.
- A União das Tribos (Pan-indigenismo): O Rapé tem origem histórica forte na Amazônia, mas hoje é uma medicina universal entre os povos indígenas. Seu uso na Retomada Puri é uma forma de conexão com a identidade indígena global e de fortalecimento da egrégora espiritual atual.
- A Questão da Saúde: Engolir fumaça de tabaco bravo é uma prática extremamente agressiva para o estômago e pulmões. O Rapé permite a limpeza mental e a conexão com o tabaco sagrado de uma forma menos danosa aos tecidos internos do corpo, permitindo que a medicina seja usada com mais frequência e segurança.
🏹 A Essência Permanece
É fundamental olhar para o pajé antigo — aquele que engolia fumaça até cair em transe — com profundo respeito, sem julgamentos modernos. Ele usava a ferramenta que tinha, entregando sua própria saúde física em troca da proteção espiritual da aldeia.
Hoje, seja com o cachimbo ou com o sopro do rapé, a forma de uso pode ter se adaptado, mas a essência da medicina continua a mesma: conectar a Dokôra (alma) aos Encantados da mata.

