Imagine a cena: um viajante europeu ou um missionário chega na aldeia, aponta para o céu e pergunta: “Quem é o Deus de vocês? Quem criou tudo isso?”
O Puri olha para o homem branco. Ele sabe o que o homem quer ouvir. Ele sabe que, se disser que não existe um “grande pai barbudo” no céu, será chamado de selvagem, de animal sem alma. Então, ele usa a palavra mágica. A senha. Ele responde: “Tupã.”
O homem branco sorri, anota no caderno e vai embora satisfeito. Mas a verdade é bem mais complexa.
⚡ Tupã: A Palavra Emprestada
Tupã não é uma palavra Puri. Tupã é Tupi-Guarani. Quando os jesuítas chegaram ao Brasil, eles pegaram a entidade do Trovão dos Tupis e disseram: “Isso aqui é Deus”. Eles usaram essa palavra para catequizar o litoral inteiro.
Quando os colonizadores subiram a serra para encontrar os Puris (que falavam outra língua, do tronco Macro-Jê), eles já traziam “Tupã” na ponta da língua. Os registros históricos (como os de Wied-Neuwied) mostram que os Puris usavam a palavra Tupan para falar com os brancos sobre Deus. Mas o próprio príncipe alemão desconfiava: “Eles parecem repetir isso apenas para nos satisfazer ou porque ouviram de outros índios.”
🤐 A Estratégia do Silêncio
Dizer “Tupã” era uma forma de proteção. Era uma camuflagem. Os Puris não tinham um “Deus Criador” antropomórfico (com forma humana) que ficava no céu julgando pecados. A cosmologia Puri era feita de forças vivas:
- O Trovão (respeitado como força, não como pai).
- O Quelem (o espírito ruim, temido).
- A Mata (a provedora).
Ao aceitar o nome “Tupã”, o Puri evitava o conflito religioso, mas continuava praticando seus ritos ancestrais (como o banho de rio, o respeito à onça, o colar de saboneteira) em segredo.
✨ A Virada: Dokôra
Hoje, na Retomada, muitos de nós paramos de usar Tupã. Não porque seja ruim, mas porque não é nosso.
Buscando em nossa própria língua, encontramos Dokôra. Historicamente, Dokôra significa “Alma”, “Espírito”, “Vida”. É a centelha que habita dentro de cada um, não um juiz sentado nas nuvens.
Ao passarmos a usar Dokôra para falar do Sagrado, estamos fazendo uma correção histórica. Estamos dizendo: “Nós não precisamos do Deus dos outros. Nós temos a nossa própria conexão com o Divino, e ela vem de dentro, da nossa própria alma/vida.”
🏹 Conclusão
A resposta “Tupã” serviu para nos manter vivos diante da cruz e da espada. Mas hoje, que podemos falar livremente, não precisamos mais usar a senha do homem branco. O sagrado Puri não mora numa palavra estrangeira. Ele mora no silêncio da mata e na força da Dokôra que bate no seu peito.
Para refletir: Quantas vezes você também diz o que os outros querem ouvir só para evitar conflito, escondendo sua verdadeira crença?

