Você já parou para ouvir o silêncio da mata à noite? Para os nossos ancestrais, o silêncio absoluto não era paz. Era perigo. O silêncio era o espaço onde o Quelem (o espírito mau) caminhava.
Para proteger a aldeia e conectar a Dokôra (alma) com o sagrado, o Puri precisava de som. Mas não qualquer som: precisava de som de poder.
Vamos descobrir os instrumentos que faziam a “trilha sonora” da cosmologia Puri.
🪇 O Maracá: O Motor da Dança
Todo mundo conhece o maracá. Uma cabaça oca, um cabo de madeira e sementes (ou pedrinhas) dentro. Parece simples, né?
Mas na mão de um pajé ou no centro de uma roda de dança ao luar, o maracá não é instrumento musical. É uma ferramenta de limpeza. Acredita-se que o som seco e constante das sementes batendo nas paredes da cabaça tem o poder de “quebrar” energias estagnadas. É como uma chuva constante que lava o ambiente espiritual.
Nos registros históricos, vemos os Puris dançando a noite toda, batendo os pés com força na terra. O maracá era o coração dessa batida, induzindo o transe que permitia falar com os invisíveis.
🎺 A Tecnologia Exótica: A Trombeta de Tatu
Aqui está o segredo que quase ninguém conta. Além do maracá, os cronistas antigos (como Spix e Martius) registraram um instrumento muito peculiar usado pelos nossos parentes da região: uma buzina feita de rabo de Tatu.
Isso mesmo. Eles pegavam uma taquara (bambu) oca e, na ponta, fixavam o rabo seco e oco de um tatu (usando cera de abelha para vedar).
Por que Tatu? Na cosmologia, nada é por acaso. O Tatu é o bicho que entra na terra, que conhece o submundo e que tem uma casca dura (proteção). Ao soprar através de um rabo de tatu, o som sai amplificado pela “armadura” do animal. É como se o Puri estivesse usando a força do bicho para fazer sua voz ser ouvida mais longe — tanto na mata física quanto no mundo espiritual.
🌌 Som é Proteção
Hoje, a gente coloca fone de ouvido para se isolar do mundo. O Puri fazia música para se conectar com ele.
Seja chacoalhando as sementes dentro da cabaça, seja soprando na cauda do tatu, o objetivo era um só: dizer aos espíritos da mata: “Nós estamos aqui. Nós estamos vivos. Nós somos fortes.”
O som, para o nosso povo, sempre foi uma forma de marcar território contra o medo.
Para refletir: Qual é o som que te acalma e te conecta hoje em dia? O barulho da chuva, do mar, ou o silêncio?

